O estudo das relações entre o processo de trabalho docente, as reais condições sob as quais ele se desenvolve e o possível adoecimento físico e mental dos professores constituem um desafio e uma necessidade para se entender o processo saúde-doença do trabalhador docente e se buscar as possíveis associações com o afastamento do trabalho por motivo de saúde. Este artigo apresenta o perfil dos afastamentos do trabalho por motivos de saúde de uma população de profissionais da educação. Buscando elementos na literatura disponível, aventa a hipótese de que as condições de trabalho nas escolas podem gerar sobreesforço dos docentes na realização de suas tarefas. Foram analisados os dados apresentados no Relatório preparado pela Gerência de Saúde do Servidor e Perícia Médica (GSPM) da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Minas Gerais, relativos aos afastamentos do trabalho de funcionários da Secretaria Municipal de Educação, de abril de 2001 a maio de 2003. Os afastamentos foram indicados pelos atestados médicos fornecidos pela própria instituição. Os dados obtidos, embora não permitissem discriminar o número de professores envolvidos, possibilitaram o conhecimento do número de afastamentos entre os professores, sendo que os transtornos psíquicos ficaram em primeiro lugar entre os diagnósticos que provocaram os afastamentos.
A centralidade atribuída aos docentes nos processos de reformas educacionais em curso traz novas exigências profissionais com efeitos sobre a sua saúde. Buscando resultados na literatura epidemiológica e ergonômica, este artigo tece relações entre o processo de intensificação do trabalho nas escolas e o tipo de adoecimento dos professores descrito nos estudos atuais. Sobre a intensificação, são mencionados fatores qualitativos, caracterizados pelas transformações da atividade sem o necessário suporte social para acomodar as exigências do trabalho, e fatores quantitativos, relacionados ao aumento do volume de tarefas nas escolas. As evidências trazidas ao texto permitem esboçar as bases de um modelo explicativo para o processo de morbidade docente calcado em determinantes ambientais e organizacionais e suas implicações sobre a atividade de trabalho na sala de aula.
Estudos realizados em todo o mundo evidenciam que os educadores correm o risco de sofrer esgotamento físico ou mental, em face das dificuldades materiais e psicológicas associadas ao exercício da atividade docente. Objetivou-se estimar a prevalência de transtornos mentais em professores da rede municipal de ensino de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, e investigar a associação com as características do trabalho docente. Empregou-se um estudo do tipo corte transversal em professores do ensino fundamental da Regional Nordeste, utilizando-se um questionário auto-aplicado, com seis blocos de questões. O General Health Questionnaire (GHQ) na versão "12" foi o instrumento de rastreamento de transtornos mentais não-psicóticos na população estudada. Participaram do estudo, 751 dos 792 professores do ensino fundamental de vinte e seis escolas municipais da regional citada (94,8%). Os transtornos mentais foram significativamente associados à experiência com a violência e piores condições ambientais, ambiente físico e conforto no trabalho, e organizacionais, margem de autonomia, de criatividade e tempo no preparo das aulas. Os resultados apontam para uma situação grave relativamente à saúde da população pesquisada e fornecem elementos consistentes para a proposição de medidas com vistas à melhoria das condições de trabalho docente.
1 January 2020 in Revista Brasileira de Saúde Ocupacional
In recent decades several groups of researchers have been interested in describing and understanding vocal morbidity in teachers in order to explain the large number of teachers diagnosed with dysphonia and account for the absenteeism attributed to vocal disability. To determine the proportion of teachers who reported a diagnosis of dysphonia and measure associations between individual and contextual factors and the event of interest. Teachers were recruited from the city of Belo Horizonte and invited to complete a web-based institutional intranet questionnaire. In total, 649 teachers responded; 32% (CI 28.5-35.5) reported that they had received a physician diagnosis of dysphonia. This prevalence was significantly higher among female teachers (prevalence ratio (PR) 2.33; CI 1.41-3.85), and groups who reported limited technical resources and equipment (PR 1.56; CI 1.14-2.15), a diagnosis of gastritis (PR 1.59; CI 1.28-1.98), not being summoned for an annual physician examination (PR 0.47; CI 0.32-0.68), or absenteeism (PR 1.39; CI 1.06-1.81). The high prevalence of dysphonia in teachers was not associated with any individual variables, except for sex and comorbidity (diagnosis of gastritis). Limited technical resources and equipment were associated with dysphonia and suggests policy change is important in preventing dysphonia.
1 January 2021 in Revista Brasileira de Educação Médica
Resumo: Introdução: Combinados à cultura geracional dos alunos a conclamar novos desafios para as escolas médicas, estão as reformas do modelo assistencial e os novos padrões de adoecimento. Essas transformações justificaram movimentos nos anos 1990 para reorganizar o ensino médico. Paralelamente, inovações no campo educacional foram alimentadas, entre outros referenciais, na teoria sociocultural. A interseção educação, pedagogia e psicologia alimentou o reconhecimento de três dimensões do processo de aprendizagem humana: plano interpsíquico, ou seja, compartilhamento entre indivíduos; mediações de objetos e imagens, ou seja, a semiótica; e o plano intrapsíquico que é relativo à internalização do conhecimento construído. Os avanços teóricos e as tecnologias instrucionais impulsionaram a aplicação de metodologias ativas de aprendizagem, que têm sido contrastadas ao modelo tradicional da aula expositiva nas escolas médicas. Relato de experiência: Este relato apresenta experiências docentes no desenvolvimento e na aplicação de metodologias ativas de aprendizagem no ensino da Saúde Coletiva para alunos de Medicina. Discussão: Baseando-se na experiência de adequação do modelo pedagógico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, três métodos foram discutidos: elaboração de projetos, sala de aula invertida e instrução por colegas, bem como os seus fundamentos pedagógicos. Examinaram-se a coerência entre valores da atual geração de alunos, as mudanças de paradigma na prestação dos serviços de saúde e as práticas de inovações pedagógicas combinadas ao emprego das tecnologias da informação e comunicação (TIC) nos projetos de ensino. A sala de aula invertida e a instrução por colegas apoiadas pelas TIC conferiram um novo formato à sala de aula, de maneira a tornar a aprendizagem mais significativa. Hesitações recorrentes por parte dos alunos foram interpretadas como tensões entre a passividade em que se encontram no modelo tradicional e a chamada para maior implicação quando são utilizadas as metodologias ativas de aprendizagem. Foi requerido trabalho docente intenso para fazer a transposição didática. Deficiências das habilidades comunicacionais do professor devem ser superadas. Conclusão: O uso de metodologias ativas de aprendizagem, além de coerente com a cultura dessa geração de alunos, contribui, de maneira significativa, para o desenvolvimento de competências centrais na formação do aluno de Medicina. Para o futuro próximo, serão imprescindíveis avaliação sistemática da proposta e mais recursos tecnológicos.