O objetivo deste texto é refletir sobre o novo “boom” da produção acadêmica no campo da saúde global, com base em dois elementos de análise que consideramos fundamentais. O primeiro é a importante mudança do papel que o Estado brasileiro tem desempenhado nas relações internacionais, e particularmente nos foros internacionais relacionados à saúde e ao meio ambiente, inclusive com significativa perda de liderança no que se refere à implantação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 7. O segundo é justamente a sustentabilidade como enfoque fundamental de uma agenda de pesquisa no campo da saúde global. No âmbito deste artigo, a expressão sustentabilidade, que reconhecemos como polissêmica e controversa, é usada sob uma perspectiva crítica e interdisciplinar, salientando questões relacionadas à diversidade cultural, à solidariedade com o planeta (e sua biodiversidade), aos valores éticos e de equidade, igualdade de direitos, justiça e autonomia 8. Em seu sentido elementar, a sustentabilidade remete à busca de um desenvolvimento econômico e social capaz de voltar-se às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades 9. Note-se que a satisfação das atuais necessidades de determinadas regiões do mundo tem originado desequilíbrios que dificultam ou até impossibilitam a vida em outras regiões. Porém, endossamos que uma matriz interpretativa multidimensional sobre a sustentabilidade tem enorme potencial para pensar os desafios colocados na modernidade tardia, que se propagam em diferentes domínios e escalas. Caracterizados por incertezas, ambiguidades e complexidades 10, esses desafios demandam respostas e intervenções que levem em conta a necessidade de profundas mudanças do sistema socioeconômico nos modos de produção e consumo 11 em diversas áreas, como energia, agricultura, água, transporte, habitação e saúde. Ademais, a continuidade das políticas públicas é imprescindível para viabilizar soluções estruturais e de longo prazo que de fato fomentem a igualdade, a coesão e a justiça social, por meio de politicas intersetoriais integradas, articuladas ou ao menos coordenadas.