No atual cenário de complexidade das sociedades contemporâneas, vários são os fatores que contribuem para o agravamento da crise social. O esvaziamento da esfera pública e o conseqüente distanciamento da sociedade civil dos temas eminentemente sociais e humanos são sintomas que evidenciam a crise de uma das dimensões vitais da sociedade, a política. A esse respeito, as reflexões de Theodor Adorno sobre a educação, pensadas no contexto mais amplo de uma sociedade em que prevalece a racionalidade instrumental, o poder ideológico da indústria cultural e a conversão da Bildung (formação cultural) em Halbbildung (semiformação), não deixam dúvidas quanto aos limites do processo formativo atual. A dimensão crítica da cultura, que deveria garantir a emancipação, se desvincula da ação social e acaba cedendo lugar a forma dominante da consciência social voltada para a adaptação e o conformismo. Daí a necessidade, em termos políticos, de uma educação que privilegie a auto-reflexão crítica sobre o processo de semiformação da sociedade, em que ela necessariamente se converteu, já que a determinação política da educação decorre exatamente da necessidade de formação de sujeitos emancipados e livres da condição de alienação social.
Hermenêutica objetiva e pesquisa empírica em educação: a experiência com os estudos de sala de aula em Frankfurt am Main (Objective hermeneutics and empirical research on education: the experience with classroom studies in Frankfurt am Main)
A Teoria Crítica da Sociedade, tal como nos esclareceu Max Horkheimer, no artigo "Teoria Tradicional e Teoria Crítica" de 1937, está fundamentada em dois princípios básicos da teoria social: o comportamento crítico e a orientação para a emancipação.
RESUMO O objetivo deste ensaio teórico-crítico de abordagem documental e de referencial analítico apoiado nas contribuições da Teoria Crítica da Sociedade é refletir sobre a investida das empresas de tecnologia digital ao campo educacional institucionalizado a partir das plataformas de ensino e, também, da retórica de inovação que as acompanha. Em um movimento análogo ao narrado na epopeia homérica – passagem de Ulisses pelas sereias –, a introdução das inteligências artificiais na educação em resposta à gama de problemas aí verificados revela, antes, a corrosão das práticas docentes frente aos interesses mercadológicos. Assim, a intromissão desmesurada das tecnologias digitais nas ambiências educacionais tem apontado o risco de obliterar a atuação docente em seu compromisso com uma formação sensível e produtora de uma “consciência verdadeira” efetivamente emancipatória. Desse modo, destacamos que se trata de uma análise dos impactos provocados aos processos educacionais e dos impactos sobre a formação e consequente atuação profissional quando submetida aos ditames da lógica plataformizada e algorítmica da inteligência artificial.
1 December 2022 in Revista Brasileira de História da Educação
Octavio Domingues (1897-1972), professor, geneticista e diretor do periódico Boletim de Eugenia, é um intelectual ainda pouco estudado no campo da Educação, embora tenha publicado dezenas de artigos e livros sobre o tema. A partir de uma pesquisa documental em diálogo com a bibliografia especializada, o presente artigo analisa as publicações de Domingues na Revista de Agricultura, de 1926 a 1930, bem como no Boletim de Eugenia, de 1930 a 1932, explicitando a relação entre educação, hereditariedade e eugenia desenvolvida nesses periódicos. Conclui-se que Domingues considerou a educação como o meio mais profícuo para a formação da consciência eugênica, estruturando um projeto educacional elitista e autoritário, a despeito dos argumentos pró-miscigenação e ‘humanistas’ presentes em sua obra.